Não te rendas…

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Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso:
continuar a viagem,
perseguir sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e existe o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto em meio ao nada,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

(Mário Benedetti)

Guia para viajar pelas florestas dos sentidos

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O que é o caminho? anúncio de partida escrito em folhas que o pó desenhou.

O que é a árvore? lagoa verde cujas ondas são o vento.

O que é o vento?  alma que não quer habitar o corpo.

O que é a morte? carro que leva do útero da mulher ao útero da terra.

O que é a lágrima? guerra perdida pelo corpo.

O que é o desespero? descrição da vida na língua da morte.

O que é o horizonte? espaço que se move sem parar.

O que é a decepção? espinho que sangra nas lembranças.

O que é a coincidência? fruto na árvore do vento caindo entre as mãos sem se saber.

O que é o não sentido? doença que mais se propaga.

O que é o medo? paralisia que avança.

O que é a memória? casa habitada só por coisas ausentes.

O que é a poesia? navios que navegam, sem portos.

O que é a metáfora? asa aliviando no peito das palavras.

O que é o fracasso? musgo boiando no lago da vida.

O que é a surpresa? pássaro que escapou da gaiola da realidade.

O que é a história? cego a tocar tambor.

O que é a mocidade? chegada barulhenta.

O que é a velhice? partida silenciosa.

O que é a sorte? dado na mão do tempo.

O que é a linha reta? soma de linhas tortas invisíveis.

O que é o umbigo? meio caminho entre dois paraísos.

O que é o tempo? veste que usamos sem poder tirar.

O que é a melancolia? anoitecer no espaço do corpo.

O que é o sentido? início do não sentido e seu fim.

(POEMAS, de ADONIS,  Ali Ahmad Said)

Noturno

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O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte.

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
no fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nessa estrada
Só quem pode me seguir sou eu
Sou eu, sou eu, sou eu

(Graco / Caio Sílvio)

Passagens literárias

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“Não há nada como refazer a realidade. (…) O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. E não importa sobre o quê.

É claro que, tal como ocorre quando qualquer pessoa morre, embora muitos sofram, outros permanecem indiferentes, ou se sentem aliviados, ou então, por motivos bons ou maus, ficam na verdade satisfeitos.

É justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos: mais um registro da realidade da morte que avassala tudo.É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é injusta. Para quem provou a vida, a morte não parece nem sequer natural.

(No quarto, ela sentou-se a seu lado e segurou-lhe a mão, pensando: quando a gente é jovem, é o exterior do corpo que é importante, a aparência externa. Quando envelhecemos, é o que está dentro que importa, e as pessoas não ligam mais para a aparência)

(in Homem Comum, de Philip Roth)

Eu, pecador, me confesso

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Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
De virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal Céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)


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